Tento sair do espaço amoroso quando levo a caneta ao papel, mas não consigo. Talvez pelo fato de quem agora rabisque mais uma folha branca ser tão minúsculo dentro de um espaço tão grandioso. Ou pelo espaço me perseguir nas trocas de papeis e canetas.
Não tomo o fato como privilégio, muito menos como compromisso. Talvez como uma expressão que esteja escassa nestes tempos em que o ódio é animal domesticado.
Tenho vontade de escrever sobre a torneira que pinga; o gato que se espreguiça; ou sobre a preguiça de narrar tais coisas. Tudo me leva ao papel. E tudo que levo ao papel é sentimental. Talvez as pessoas tenham cansado das emoções. Talvez tenham ido à procura do nada em outras composições. Mas, vá, ficarei nas mesmas ações.
Enquanto o amor existir, sobre amor escreverei.
Quando o amor meu coração partir, as minhas linhas amarei.
Caso ele desapareça, levarei a caneta ao papel e com outro assunto irei prosear.
Tomara [eu] que eu sempre viva com o amor para expressar.

[não foi uma prosa romântica, mas em meia dúzia de linhas o amor deu o ar de sua graça].

Severino Figueiredo

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Amores!

O que fazer
Com essas inspirações
Que não saem da mente?

Não que eu seja prepotente,
Mas vou ignorá-las
E serei, por alguns instantes,
Alguém que nada sente.

Lá está outra,
Veio bater à minha porta.
Que ela espere um pouco lá fora
Acompanhando a chuva que cai.

Crápula eu sou!
Ignorando alguém que comigo se importa.

Vem, rainha inspiração,
Fazei da folha em branco
O que fazes com meu coração.

Severino Figueiredo

O que falar?

O que falar para você
Que não quer mudar
E que passou a viver
Fora do lugar?

O que falar para você
Que não quer se levantar
E está pagando para ver
O amor sujo te sujar?

O que falar para você?
Vá crescer
A vida é uma só,
Não queira assim morrer.

 

Severino Figueiredo

Velas!

Que rapaz eclético eu sou: escrevendo à luz de velas. Não, não estou interrompendo um jantar romântico com a minha amada para preencher mais uma folha em branco. Primeiro que não acho essa comunhão nada romântica. Jantar a velas, onde já se viu? Enxergar a comida à meia luz faz mal ao apetite. Segundo – o mais importante –, não tenho uma amada. E se tivesse, não precisaria de um jantar à luz de velas para romantizar nossa relação. A lua aí está – poucos a usam; eu a usaria. E a usarei, futuramente.

A falta de energia, felizmente, traz uma paz que a sua presença não faz questão de deixar nos lares. A mãe grudada na novela; o pai xingando o jogador que chutou de canela; e o filho, dentro do quarto, curtindo e compartilhando o que aparece na tela, dão lugar a uma roda de conversa feita para questionar. A mãe pergunta sobre o colégio, e o pai, sem sacrilégio, faz perguntas sobre o namorar. O filho, envergonhado, desconversa e, à luz de velas, diz que vai estudar. Na verdade, achou uma folha em branco e com ela foi prosear.

 

Severino Figueiredo

Poeta, minha gente!

O poeta
Conversa
Inventa
Engana
Inversa
Se encanta
Sofre
Chora
Corre:
Em busca da inspiração perfeita…

O poeta
Mente
Sente
Senta
Versa
Rima
O quente
Com ardente
E fica doente
Como a gente:
O poeta é um mortal comum amante dos versos,
Minha gente…

 

Severino Figueiredo

João e Maria!

Maria queria um amor:
Foi ao mar, foi à feira,
Desistiu,
Virou freira.

João sonhava com a vida boêmia:
Ter dinheiro e mulheres –
Não teve, coitado,
Foi à feira vender seus talheres.

Maria, de freira, só um dia:
Insistia no amor,
Alguém para encher
Seu coração de alegria.

João os talheres vendia,
Sorrindo, cantando,
Cheio de simpatia,
Para a pobre moça chamada Maria.

 

Severino Figueiredo

Tolo!

Como és tolo! Ficas aí sentado, com uma caneta à mão, pleiteando uma folha em branco. Já queres preenchê-la com teus pensamentos? Ah, para! Ninguém tem curiosidade no que pensas. Teus pensamentos podem até serem românticos, cheios de visões, mas, por favor, para! Ninguém quer entendê-los. Ou, ao menos, vê-los. O que eles gostam, e querem, é relacionado à vida alheia. Às ações de outrem. Mas, pensando bem, que tolice a deles, não? E eu aqui te chamando de tolo. Perdoa-me! Não és! Tolos são eles! Tolo sou eu, também, por te chamar de tolo. Continua, amigo meu. Continua sentado, de pé, ou deitado. Continua a preencher as folhas em branco, que tens, com teus pensamentos e ações. 
De folha em folha, chegarás aos capítulos. De capítulo em capítulo, ao livro. Livro da vida. Da tua vida! Enquanto os tolos, amigo meu, chegarão à capa, ou ao índice, apenas.

 

Severino Figueiredo