AO MACHADO, COM AMOR (II)

 

Nasce mulato no Livramento,
ga-ga-gago de nascimento,
como coroinha tenta crescer,
prefere os doces vender.

Perde irmã, perde mãe, perde pai,
pela madrasta ser criado vai.

Autodidata como o padeiro
que lhe ensinou as línguas
do mundo inteiro.

[Menino Machado, o brasileiro!]

No mundo das letras encontra a paz,
o padrinho Paula se encanta cada vez mais
desde os primeiros versos
do menino epiléptico.

[Moço Machado, romântico sério!]

Passatempo, tempo passa,
uma Carolina seu peito transpassa.

Casando-se, a literatura permeia,
foi amor de três décadas e meia.

“Machadinho, meu bem, não és romântico,
não crês nisto, és tão irônico”,
comenta [minha doce e meiga] Carolina.

[Homem Machado, a todos ensina]

Vem Brás, Bentinho, Capitu, o esplendor,
virou um ícone: grande escritor.

Tempo passa, passatempo,
vai-se Carolina, seu grande alento.

Morre triste, quase cego,
viu a vida como ninguém.

“A vida é boa”,
murmurou o mestre a alguém.

É o maior nome das letras,
podes discordar,
mas saibas que em minhas prateleiras
sempre irás encontrar:

Meu bom e velho Machado
disposto a me acompanhar.

Severino Figueiredo

AO MACHADO, COM AMOR!

AO MACHADO, COM AMOR!

Lembro-me da atenção dos meus olhos quando se despojaram em cima da tua biografia. Era um trabalho colegial, desses que muitos alunos selecionam, copiam, colam e imprimem. Como não sou um deles, fui a fundo à tua vida. Confesso que a simples pesquisa me abriu a porta que, antes, era taxada de velha e chata por mim. Abriste, condecorando-me, a porta da literatura.
Tu me apresentaste Guiomar. Logo depois, o Brás, o Bento, a Capitu, o Quincas, a Helena…
Ah, Machado, hoje escrevo por tua culpa. Neste momento, escrevo pra ti. Não é uma coisa que faço constantemente – tratando-se do meu ídolo, fico sem versos, sem prosa. Mas cá estou rabiscando algumas linhas para dizer-te que preencheste uma lacuna que em minha vida faltava.
Não quero que encares como homenagem, nem como fanatismo. Quero que encares com orgulho. Orgulho por teres chegado ao teu objetivo [assim acredito] de levar a arte literata às vidas de meros mortais como eu.
Desculpe-me se estou atrapalhando teus estudos sobre a geologia dos campos santos, mas escrevi só para constar que foste tu o caminho que me levou a um mundo melhor [e que posso chamar de meu].

Severino Figueiredo

Faxina!

Talvez eu seja um dos poucos empregados domésticos desta vida tão difícil quanto segurar um talher aos sete meses de idade (comparação original!).

Neste fim de semana, a faxina foi no bairro Internamente. Mais precisamente no residencial de codinome “Eu”, situado na Rua Deitado no Sofá, sem número e coragem. O apartamento 306, no andar cerebral, seria a minha primeira missão do dia. A proprietária, senhorita Inspiração, bela como o próprio nome, pediu-me que arrumasse toda a bagunça formada por suas tentativas inúteis de escrever o útil. Senhorita Inspiração: de inspiração só tens o nome. Os escritos, em papeis amassados, não passavam de rabiscos feitos por mãos controladas por um cérebro criança. E que coincidência! Dando meia-volta na prosa e relendo o que escrevi até aqui, percebo que em mim existe o mesmo cérebro. Assim como em você! Se não, o que seus olhos fazem nesta linha?

Faxina feita, diária paga – assim é o mundo e o seu capitalismo da prosperidade utópica. Peguei o elevador em direção ao andar sentimental. Chegando à porta do apartamento agendado, minhas pernas ameaçaram correr. Correr ao andar cerebral – onde tudo é tão racional. Apenas ameaçaram. Toquei a campainha – o apartamento era o 520. O proprietário, ainda garoto, chamava-se Coração. Morava sozinho. Talvez cursasse a faculdade de Engenharia Amorosa.

Ele nada me disse – não foi necessário –, meus olhos viram a complexidade da bagunça e o tamanho do esforço que seria necessário para deixar aquele recinto limpo e agradável. De tão complexa que era a faxina a ser feita, Coração resolveu assinar minha carteira de trabalho.

Hoje, aqui deitado no sofá, me sinto contente. Contente por colocar os pinos nos eixos no apartamento de Coração.

Agora, se me dá licença, vou passar minhas férias no andar liberdade.

Enquanto a você, companheiro usuário do cérebro criança, pegue a vassoura e vá ao bairro Internamente: tem faxina à espera.

 

Severino Figueiredo

Corrente da cor rente!

A corrente,
de cor rente
ao réu,
deixou-me 
uma semente
sem mente
nem véu.

A cor rente,
ao redor
do céu,
deixou na
minha mente
a pressão
de um réu.

A Coerente,
com palavras 
de mel,
beijou 
os meus lábios
amigos
do fel.

[Minha mente talvez seja um céu:
cor rente cinzenta,
decente e sem véu].

Severino Figueiredo

Dia de domingo!

Dia de domingo
passo dormindo,
mentindo,
sentindo
meu íntimo
em paz.

Dia de domingo
passo calado,
acordado,
chateado,
encostado,
sem mais.

Dia de domingo
passo com os versos
inversos
do meu universo
poesia.

Dia de domingo
ninguém chama
(ainda bem!)

Só tenho domingos
nas minhas semanas
(você também?)

Severino Figueiredo

Tento sair do espaço amoroso quando levo a caneta ao papel, mas não consigo. Talvez pelo fato de quem agora rabisque mais uma folha branca ser tão minúsculo dentro de um espaço tão grandioso. Ou pelo espaço me perseguir nas trocas de papeis e canetas.
Não tomo o fato como privilégio, muito menos como compromisso. Talvez como uma expressão que esteja escassa nestes tempos em que o ódio é animal domesticado.
Tenho vontade de escrever sobre a torneira que pinga; o gato que se espreguiça; ou sobre a preguiça de narrar tais coisas. Tudo me leva ao papel. E tudo que levo ao papel é sentimental. Talvez as pessoas tenham cansado das emoções. Talvez tenham ido à procura do nada em outras composições. Mas, vá, ficarei nas mesmas ações.
Enquanto o amor existir, sobre amor escreverei.
Quando o amor meu coração partir, as minhas linhas amarei.
Caso ele desapareça, levarei a caneta ao papel e com outro assunto irei prosear.
Tomara [eu] que eu sempre viva com o amor para expressar.

[não foi uma prosa romântica, mas em meia dúzia de linhas o amor deu o ar de sua graça].

Severino Figueiredo

Amores!

O que fazer
Com essas inspirações
Que não saem da mente?

Não que eu seja prepotente,
Mas vou ignorá-las
E serei, por alguns instantes,
Alguém que nada sente.

Lá está outra,
Veio bater à minha porta.
Que ela espere um pouco lá fora
Acompanhando a chuva que cai.

Crápula eu sou!
Ignorando alguém que comigo se importa.

Vem, rainha inspiração,
Fazei da folha em branco
O que fazes com meu coração.

Severino Figueiredo