O que falar?

O que falar para você
Que não quer mudar
E que passou a viver
Fora do lugar?

O que falar para você
Que não quer se levantar
E está pagando para ver
O amor sujo te sujar?

O que falar para você?
Vá crescer
A vida é uma só,
Não queira assim morrer.

 

Severino Figueiredo

Velas!

Que rapaz eclético eu sou: escrevendo à luz de velas. Não, não estou interrompendo um jantar romântico com a minha amada para preencher mais uma folha em branco. Primeiro que não acho essa comunhão nada romântica. Jantar a velas, onde já se viu? Enxergar a comida à meia luz faz mal ao apetite. Segundo – o mais importante –, não tenho uma amada. E se tivesse, não precisaria de um jantar à luz de velas para romantizar nossa relação. A lua aí está – poucos a usam; eu a usaria. E a usarei, futuramente.

A falta de energia, felizmente, traz uma paz que a sua presença não faz questão de deixar nos lares. A mãe grudada na novela; o pai xingando o jogador que chutou de canela; e o filho, dentro do quarto, curtindo e compartilhando o que aparece na tela, dão lugar a uma roda de conversa feita para questionar. A mãe pergunta sobre o colégio, e o pai, sem sacrilégio, faz perguntas sobre o namorar. O filho, envergonhado, desconversa e, à luz de velas, diz que vai estudar. Na verdade, achou uma folha em branco e com ela foi prosear.

 

Severino Figueiredo

Poeta, minha gente!

O poeta
Conversa
Inventa
Engana
Inversa
Se encanta
Sofre
Chora
Corre:
Em busca da inspiração perfeita…

O poeta
Mente
Sente
Senta
Versa
Rima
O quente
Com ardente
E fica doente
Como a gente:
O poeta é um mortal comum amante dos versos,
Minha gente…

 

Severino Figueiredo

João e Maria!

Maria queria um amor:
Foi ao mar, foi à feira,
Desistiu,
Virou freira.

João sonhava com a vida boêmia:
Ter dinheiro e mulheres –
Não teve, coitado,
Foi à feira vender seus talheres.

Maria, de freira, só um dia:
Insistia no amor,
Alguém para encher
Seu coração de alegria.

João os talheres vendia,
Sorrindo, cantando,
Cheio de simpatia,
Para a pobre moça chamada Maria.

 

Severino Figueiredo

Tolo!

Como és tolo! Ficas aí sentado, com uma caneta à mão, pleiteando uma folha em branco. Já queres preenchê-la com teus pensamentos? Ah, para! Ninguém tem curiosidade no que pensas. Teus pensamentos podem até serem românticos, cheios de visões, mas, por favor, para! Ninguém quer entendê-los. Ou, ao menos, vê-los. O que eles gostam, e querem, é relacionado à vida alheia. Às ações de outrem. Mas, pensando bem, que tolice a deles, não? E eu aqui te chamando de tolo. Perdoa-me! Não és! Tolos são eles! Tolo sou eu, também, por te chamar de tolo. Continua, amigo meu. Continua sentado, de pé, ou deitado. Continua a preencher as folhas em branco, que tens, com teus pensamentos e ações. 
De folha em folha, chegarás aos capítulos. De capítulo em capítulo, ao livro. Livro da vida. Da tua vida! Enquanto os tolos, amigo meu, chegarão à capa, ou ao índice, apenas.

 

Severino Figueiredo

Bela!

Embeleza-te!
Embeleza-me!
A tua beleza – bela beleza –
Embeleza o dia de hoje.
Embelezou-me!
Beleza aos meus olhos não belos.
Beleza aos meus montes castelos.
Embelezei-me!
Mas, e agora? Por onde andas?
Embelezando?
Estou sob um céu grafite – e frágil –
Talvez pelo fato de não estares
Embelezando o céu
Da minha bela boca
Quando em contato com a tua, Bela!

Severino Figueiredo

Confusão facial!

Meus olhos sorriem
Quando minha boca vê a tua
Ah! que coisa boa quando os meus ouvidos
Abraçam o som da tua voz.
Agora, vem!
E deixa o meu nariz beijar
O teu cheiro que embriaga
O meu ser por inteiro.

Severino Figueiredo